segunda-feira, 19 de junho de 2017

XIª edição PRÉMIO SEIVA | Estreia peça de teatro "O Sr. Ibrahim e as Flores do Alcorão", de Eric-Emmanuel Schmitt

PRÉMIO SEIVA
O Prémio Seiva, um dos mais representativos Prémios da cidade do Porto e que tem por finalidade distinguir as individualidades que, através das suas obras ou das suas actividades mais tenham contribuído para o progresso, dignificação e prestígio das Artes, das Letras e das Ciências do Porto, foi agora atribuído pela XIª vez.
O Júri, composto pelo Pintor Armando Alves, pela Profª. Doutora Maria de Sousa, pela Profª. Doutora Maria João Reynaud e pelo actor António Reis (em representação da Seiva Trupe), após a ratificação de uma Comissão composta pelos jornalistas Adriano Miranda (Sindicato dos Jornalistas), Amílcar Correia (Jornal Público), Sérgio Almeida (Jornal de Notícias) e Tiago Dias (Agência Lusa), atribuiu o Prémio às seguintes personalidades:

- Pintor Jorge Pinheiro – nas Artes
- Professora Doutora Fátima Carneiro – nas Ciências
- Prof. Doutor Arnaldo Saraiva – nas Letras

No próximo dia 20 de Junho, pelas 21h30, terá lugar na Casa das Artes, Porto, a cerimónia pública de entrega da XIª edição do Prémio Seiva, bem como a estreia da peça de teatro “O Sr. Ibrahim e as Flores do Alcorão”, de Eric-Emmanuel Schmitt.

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“O Senhor Ibrahim e as Flores do Alcorão”,  de Eric-Emmanuel Schmitt

Estreia: 20 de Junho,às 21h30 (logo após a entrega do Prémio Seiva)
               21 e 22 de Junho, às 21h45

Local: Casa das Artes, Porto

SINOPSE

Numa linguagem simples mas profundamente filosófica e humanista, desaguando numa emocionante história condimentada com humor, Eric-Emmanuel Schmitt, filósofo e dramaturgo, um dos mais prolíficos e premiados escritores do nosso tempo, narra um caso de um jovem judeu e de um velho merceeiro árabe. O jovem vive só e com um pai frio e distante.
O Senhor Ibrahim, o merceeiro árabe, é acolhedor e simpático. Juntos vivem uma série de aventuras e edificam uma amizade que ultrapassa todas as fronteiras. Uma obra de sabedorias, de tolerância, bondade e fraternidade, numa temática bem actual.

Autor | Eric-Emmanuel Schmitt
Cenografia | José Carlos Barros
Desenho de Luz | Júlio Filipe
Assistente Encenação e Direcção de Cena | Rita Reis
Direcção| Júlio Cardoso

Interpretação| Fernando Soares
                            Miguel Batista


Realização| Seiva Trupe

                                                                                                                               A peça está classificada para M/12.

domingo, 18 de junho de 2017

MEMÓRIAS DE UM SOBREVIVENTE - casos da vida real



Pintura de fotos 
Engª.Virginia Moura e Arqº.Lobão Vital

IV
O AMANHECER DE UM NOVO DIA
Acordou sereno, com menos dores, a luz da manhã a querer romper-lhe as pálpebras, a querer mover-se, com vontade de falar com a Mãe, sempre ali ao seu lado, de a animar, dizer-lhe que tinha descansado!
Sempre que o médico entrava pressentia-o aos pés da cama.
Naquela manhã divisava-lhe vagamente os contornos em contraluz. A luminosidade da janela, mesmo à sua frente, embora atenuada por uma frondosa árvore, continuava a impedi-lo de abrir os olhos
Sentiu necessidade de chamar o médico. Lá conseguiu esboçar um pequeno aceno com o dedo indicador.
Não queria acreditar no que se estava a passar. Era a silhueta do médico, o movimento do dedo indicador, a vontade imensa de falar, de saber o que lhe tinham dado para finalmente descansar.
Teve de insistir no chamamento, o médico acabou por reparar, venceu uma certa resistência e lá se aproximou:
Também o médico estava cada vez mais perplexo:
-Então o que é que te deu? Sabes que esta noite, não deixaste ninguém descansar nesta casa?
O Luis ouviu incrédulo. Não era possível! Dormira tão bem!  
Só não conseguia articular uma palavra.
O médico apercebeu-se da dificuldade e continuou, para lhe dar tempo:
-Arrancaste todos os tubos, querias levantar-te, ir embora, foi um pavor, ninguém te conseguia segurar, ninguém teve descanso.
A Mãe, ali sentada, só dizia:
-Assustaste-nos tanto, filho.
Nunca tivera uma noite assim!
A excitação, a violência e o completo descontrolo do Zito representaram para ela a agonia de um moribundo.
Quando finalmente se imobilizou, foi o estertor final, o exalar do último suspiro.
Também nunca tivera uma manhã tão inesperada!
Ali estava o Zito a reconhecer tudo á sua volta, a mover-se e a querer falar. Não lhe escapou a alegria dos companheiros de doença que invadiram a janela do quarto e não escondiam a surpresa em contemplar um “ressuscitado”!
O Luís passara a noite suspenso na linha que o separa da eternidade; interrompeu no limite uma viagem sem regresso.
Sentia agora o ar invadir-lhe os pulmões e dilatar-lhe o peito, começava a respirar o ar que Deus lhe deu, á mistura com o tubo de oxigénio.
Retomou a fala. A muito custo colocou a sua pergunta ao médico:
-O que me deram para descansar?
O médico atónito:
-Descansar?! Já te disse que aqui ninguém descansou, nem mesmo tu!
Recomeçou a viver.
Já podia voltar-se e deitar-se de lado, as chagas das costas e das nádegas passaram a dar-lhe mais sossego.
Participava nas conversas com os pais, o irmão, com os companheiros de doença e com os amigos que o visitavam.
Todos lhe faziam a melhor companhia.
À refeição nada lhe despertava mais o apetite que um bom copo de vinho branco.
Ganhara novos amigos:
Destacava-se  o Arqº. Lobão Vital, internado sobe prisão e vigiado pela PIDE, foi das melhores companhias e deixou-lhe a melhor recordação. 
De uma serenidade que transmitia paz, uma cultura superior que muito me ajudou nas opções de leitura, um firme defensor dos " Direitos do Homem"  e dotado do mais elevado sentido do humano.
O Luís logo que começou a levantar-se e a fazer pequenos percursos passou a visitar os companheiros acamados.
Entre eles destacava-se o Bélinho que há anos sofria de artrite crónica incurável encontrando-se numa situação de dependência total.
Era ainda jovem. Impressionava muito ver que as suas pernas e os seus braços mais pareciam raízes de oliveira de tão retorcidos, agarrados a um tronco bem constituído.
O sofrimento dominava aquele homem noite e dia. Apesar disso, mantinha um sorriso permanente, enigmático, sofredor, assim como a ironia duma revolta incontida.
Ao entrar naquele quarto não sabia que dizer. Tudo lhe soava a ridículo: «Está bom?»; «Está melhor?»; «Como vai isso?».
Nada fazia sentido, até porque o Bélinho desejava a morte.
 Optou por uma vaga saudação:
-VIVA!
Não para o contrariar na sua vontade…também não faria sentido desejar-lhe o contrário…
Agora entendia melhor a dificuldade de muitas das visitas que recebia e que ali ficavam, a olhar sem saberem que dizer.
Mas o Bélinho era muito diferente de tudo que conhecia.  Contava anedotas picantes e gostava ainda mais de as ouvir. Perdia-se com a retórica do Amadeu que sem dó nem piedade fazia humor da sua enfermidade, das deformações dos braços e das pernas. O Bélinho ria desalmadamente, de forma desesperada, ao ponto de ficar todo encarnado, com os olhos esbugalhados, chorava de tanto rir, babava-se, excitado dizia tudo quanto lhe vinha á cabeça… um bando de palavrões.
Quando finalmente se acalmava precisava que lhe limpassem as lágrimas e a baba e o suor.
O Amadeu também se encontrava ali internado. Era um jovem genial. Revelou-se como: radialista, autor, compositor, declamador e ator.
Amigo pessoal do mestre António Pedro fundou com ele o Teatro Experimental do Porto, foi o seu braço direito, ajudou muitos atores, empurrando-os para o palco e cantores, escrevendo-lhes as letras das canções.
A única coisa que o Bélinho ainda conseguia fazer, a muito custo e com sacrifício, era fumar um cigarro. A palma da mão, dobrada de tal forma para baixo, quase encostava ao braço e os dedos retorcidos no sentido das costas da mão lá fixavam, com grande dificuldade, o cigarro.
Não conseguia evitar que a cinza caísse no peito, queimava-o mas não reagia. Era uma dor menor relativamente ao tormento que nenhum analgésico atenuava.
Para o Luís sobreviver foi a magia de um novo amanhecer, o encanto da descoberta do chilrear dos passarinhos, da beleza dum malmequer, saborear um pão de trigo, acabado de cozer e recheado de mel; adivinhar o que causa alegria aos que nos rodeiam e evitar o que os entristeça; cumprimentar quem passa e fazer desse mesmo “o próximo”, sem sentimentalismos, quer dizer, não permitir que o nosso amor ao próximo se esvazie ao menor receio… ou ao adivinhar interesses pessoais ameaçados.
Nunca entendeu como podia alguém desejar a morte? Talvez porque nunca experimentou o sofrimento e a falta de esperança do Bélinho.
Outra coisa será viver com espírito fraterno, optar pelo caminho que mais agrada a Jesus, como forma de estar preparado para, a qualquer instante, partir rumo à eternidade. Será esse o caminho da felicidade?
O seu médico assistente, o especialista convidado bem como o pai do Luís nunca entenderam a sua recuperação. Também não o consideravam livre de perigo.
O descanso após as refeições passou a ser feito numa espaçosa e aprazível varanda refastelado numa cómoda espreguiçadeira, onde dava cor a fotografias a preto e branco.
Os exames radiológico continuavam a revelar sérios problemas nos brônquios e pulmões. Tudo apontava para a necessidade de intervenção cirúrgica. Consistia a mesma em remover duas a três costelas numa primeira fase e depois desta intervenção se encontrar consolidada, haveria que remover mais duas ou três costelas para que o pulmão ficasse devidamente acomodado.
Disto resultaria um ombro mais alto que o outro.
O médico assistente deu-lhe conta de toda a situação. 
A resposta do Luís não se fez esperar:
- Quanto mais depressa for operado melhor.
Hesitante estava o médico. O rapaz era muito novo para ficar assim deformado e decidiu:
- Vamos esperar um mês e no final avalia-mos de novo a situação.
Decorrido o mês a recuperação foi de tal forma que dispensou qualquer intervenção cirúrgica.
Para espanto de todos o Luís começou a fazer uma vida praticamente normal .
Na sua terra natal já tinham mandado rezar uma missa pela sua alma!
Não queriam acreditar que o Zito estava vivo.

Vivo! só por milagre!






quarta-feira, 14 de junho de 2017

MEMÓRIAS DE UM SOBREVIVENTE - casos da vida real


III
A HORA DA VERDADE
Tiveram o bom senso de manter todos os tubos ligados.
O sofrimento da Mãe ali sentada, dia e noite, ao lado da cama, sem dormir, sem parar de chorar, não conhecia limites.
Era o seu verdadeiro amparo, o seu anjo da guarda em carne e osso, transmitia-lhe paz, facilitava-lhe o pensamento, mantinha-o vivo.
«Tu não podes emocionar-te, se desatas a chorar, como os outros, apagas-te como um passarinho».
«Pensa bem. O especialista que concluiu pela tua morte ignora que tenhas ouvido tal sentença, de contrário não a teria proferido em voz alta».
«Todos ignoram que tu ouves, escutas e pensas. Estão todos se enganados».
«É Deus que está contigo e não vai abandonar-te».
«Deixa de ser incrédulo».
«Foi preciso ouvires a tua sentença de morte para despertares e para a pensares em Deus».
«Aprende, acredita e esforça-te para teres fé. O que tens a perder?
Só tens a ganhar se fores ao encontro daquilo que agrada a Jesus».
«Afinal, o que consideras como o pior que te aconteceu poderá reverter na melhor experiência da tua existência».
«Sempre te intrigou a resposta de Gandi, quando lhe perguntaram: O que é a verdade?
- A verdade é Deus, respondeu.
Ora se Deus é a verdade e a vida tens de começar por varrer do coração a mentira e também a animosidade para com os outros, os julgamentos e as condenações antecipadas que te atreves a proferir, a vaidade, a arrogância, a indiferença…todo o lixo em que tens vindo a tropeçar.
«Assim tenhas oportunidade para fazer uma tal limpeza que te facilite um novo olhar para o mundo e para o próximo, um novo ar para respirar».
« Cultiva uma nova dimensão espiritual. Empenha-te, trabalha e esforça-te como se tudo dependa de ti e confia como se tudo dependa da misericórdia de Deus e do seu perdão».
«Chegou também a hora de dares ouvidos á tua Mãe. Foi ela quem te disse:
- Quem rezar 1.000 “Santa Maria”, obtém a graça pedida.
Não tens outra saída. Tens de seguir em frente…acreditar e conseguir».
«Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte…»
«Pela primeira vez achava a oração curta, bonita e muito apropriada para o momento: …agora e na hora…  
Havia que deitar mãos à obra. Como controlar até mil?
Contar as dezenas pelos dedos das mãos e fixar cada dezena num dedo. Ao atingir o último dedo das mãos passar a centena para um dedo do pé e assim sucessivamente até atingir o último dedo dos pés, correspondente ao milhar.
……………………….
Terminou com a convicção de não ter errado uma única Santa Maria e também com o peso de só se lembrar de "Santa Barbara quando troveja".
Estava muito cansado, perdeu todas as energias, sentiu-se exausto.
Adormeceu profundamente.




A seguir:
IV

O AMANHECER DE UM NOVO DIA

sábado, 10 de junho de 2017

Memórias de um sobrevivente - casos da vida real -


II
A SENTENÇA DE MORTE
  Estranhamente, pensava, sentia e ouvia melhor que nunca.
Uma das mãos esquecida durante dias sobre uma coxa ficou como cortiça por ação da transpiração. A outra mão, que a Mãe segurava junto ao seu rosto, ficou igualmente como cortiça das lágrimas que sobre ela derramava noite e dia.
Acrescia o sofrimento indescritível das chagas nas costas, nádegas e nos calcanhares que permaneciam dias a fio na mesma posição.
Certa manhã ouviu de uma das enfermeiras: - «Olha como tem os calcanhares em ferida, vou pôr-lhe aqui uma almofada». Ao colocar-lhe a almofada sob as pernas de forma a elevar-lhe os calcanhares acima do colchão ela não sonhou que os havia retirado de cima de um braseiro.
As nádegas e as costas que estavam em idênticas condições, assim continuaram.
Aguardava, diariamente, a hora da visita do irmão.
Para o animar trazia-lhe, uma após outra, as suas melhores gravatas.
Certo dia, deixando fugir a boca para a verdade, comentou:
- Afinal, estás cada vez pior! Não queres ver-te ao espelho?
 Enquanto procurava no quarto um espelho para que o irmão pudesse confirmar o estado cadavérico em que se encontrava a Mãe interrompe-o:- Estas doido! Pára já com isso.
Era precisamente a chegada do irmão e das irmãs que mais esperava.
As circunstâncias em que se encontrava deixavam quem o visitava sem palavras.
Quando em Vilarinho, estendido numa cadeira de repouso na varanda, lhe perguntavam: - Está melhorzinho?
- Sim, melhorzinho, muito obrigado.
Não acreditavam… e retorquiam:
- Antes estivesse, antes estivesse, menino!!!
Tudo apontava para o irmão ver todas as suas gravatas de volta… e a breve trecho….
Ao olhar para traz assaltavam-no a crueldade das memórias e a selvajaria das brincadeiras.
Desde tenra idade que não se atemorizava com rafeiro que lhe ladrasse ás pernas, nem se detinha a pensar quais as verdadeiras intenções do bicho para correr com ele à pedrada.
Um apurado "sentido do humano" acolhia as rivalidades com estimação.
O próprio médico foi objeto de uma espera, sempre feitas em sítios escondidos. Embora bastante esmurrado, regressou a casa.
Um caso amplamente falado na aldeia, não teve o mesmo desfecho.
O agressor saiu de sua casa empunhando uma caçadeira, fez a espera num ermo, dois balázios certeiros, caçadeira ao ombro e regresso a casa.
Como não havia testemunhas, nada aconteceu, para além dos sinos a dobrar e do enterro no dia seguinte.
A civilização demorou a chegar ao longínquo Nordeste Transmontano.
O pai, enervado com a presença do gato no consultório resmungou para consigo:
- Pagava a quem matasse este gato.
O Zito não teria mais que dois, três anos. Ouviu... Registou bem a proposta… Bichaninho… Bichaninho…Cumpriu… e para seu espanto o resultado foi desastroso!
Quanto a brincadeiras, bastava atirar um punhado de pedritas ao ar junto dos perus. Logo que uma delas, na queda, atingia a cabeça de um deles, perdia de imediato todo o equilíbrio e acabava, nesse mesmo dia, na panela.
Passando das pedritas para as pedras de certo peso, jogar á pedrada era a brincadeira após as aulas e o jogo só acabava com uma cabeça rachada. Tinham o privilégio de tratamentos gratuitos.
É certo que o meio não ajudava.
As criancinhas não eram imunes à moldura dos comportamentos exteriores ao meio familiar.
Tão pouco viviam numa redoma, protegidas de qualquer contaminação.
Pelo contrário, mantinham relações com todos, gozavam de uma liberdade total e real.
A chegada das realidades virtuais, das "Redes Sociais", vieram  limitar as relações pessoais e aprisionaram jovens e adultos a écrans digitais.
Ressalta, em qualquer dos casos, ausência de Deus.
O caso da "Santa de Vilar Chão” é exemplar.
Muito pequeno foi com os Pais ver a "Santa" .
Autênticas romarias de todos os cantos do país e não só, afluíam a Vilar Chão com o mesmo fim.
Achou-a muito branca e muito magra e ouviu o Pai dizer a um colega:
- Aquela cruz que tem nas costas da mão não tem nada de natural, é uma ferida provocada, tem os tecidos macerados. Estão a sacrificar a pobre rapariga.
Não decorreu muito tempo para se espalhar a notícia de que o padre da terra, o médico e familiares procuraram “fabricar” uma “santa” para chamar gente ao lugar.
Este caso não ajudou os que defendiam as aparições em Fátima.
Neste caso foram os adultos a por em causa os relatos dos Pastorinhos, ao ponto de também os sacrificarem, pela forma como os procuraram desacreditar.
A verdade é que as crianças resistiram e defenderam os relatos das suas visões até à morte.
Uma coisa é não compreendermos, não acreditarmos, não termos fé.
Outra, muito diferente, é o respeito que devemos aos que acreditam e quem têm fé.
Despertava agora para a sua tomada de consciência.
Nunca descera ao seu interior, nunca procurou saber se tinha controlo sobre a sua vida, sobre o seu pensamento, sobre os seus sentimentos, sobre o valor que todo este conhecimento interior teria na sua conduta, na sua consciência.
Era chegada a hora de empreender essa viagem de peregrino ao seu mundo interior, de virar a página das preocupações mesquinhas de todos os dias, dos meros pesares de criancinha que sofre porque nada controlam.
Na medida em que a medicação não atuava e a tuberculose galopante o minava o Pai e o médico assistente convocaram o melhor especialista pulmonar do Porto para uma melhor avaliação do quadro clínico.
Sentia ter chegado a hora da verdade.
Qualquer que fosse o resultado, tinha de controlar as emoções e manter-se sereno.
Depois de um exame demorado das radiografias, análises clínicas e de todos os elementos disponíveis, o especialista concluiu:
-Nada podemos fazer pelo rapaz. O Dr. leve o seu filho para casa. Em casa terá uma morte mais descansada.
O pai, alarmado, não hesitou na resposta:
-Morte descansada tem ele aqui. Se o tiro da cama e o ponho numa maca mato-o.
Todos concordaram.
Concordaram também parar com toda a medicação uma vez que estavam a sacrificá-lo inutilmente.
Era a confirmação da sentença de morte.



Vista da Capela Nossa Senhora da Fé 
Segue:
III
A HORA DA VERDADE

quarta-feira, 7 de junho de 2017

MEMORIAS DE UM SOBREVIVENTE



I

PREMONIÇÃO

Em meados do século passado, nos meios rurais distantes dos grandes centros, eram poucas as famílias com recursos para assegurar a continuação dos estudos dos filhos após a instrução primária.
Esta limitação abrangia mesmo a classe média.
O médico de Vilarinho da Castanheira, Nordeste Transmontano, internou o filho mais velho num colégio na cidade do Porto, mas quando o filho que se lhe seguia concluiu a instrução primária teve de alugar uma casa, no Porto, Travessa Nossa Senhora da Conceição, pois havia que pensar  na continuação dos estudos duas raparigas mais novas.
A esposa ficou com os filhos e ele regressou às suas atividades na aldeia.
O mais velho continuou matriculado no Colégio Almeida Garrett como aluno externo, o mais novo frequentou o 1º.ano da Escola Comercial Raul Dória, na Rua Gonçalo Cristóvão e a Escola Comercial Oliveira Martins na Rua do Sol nos anos seguintes. As irmãs a Escola Primária mais próxima.
A vida solitária do médico na aldeia durou poucos anos.
Adoeceu gravemente e a esposa teve de regressar para cuidar dele.
A partir daí as filhas ficaram numa pensão e os filhos noutra. As preocupações aumentaram e as despesas também.
O mais velho, bom aluno até aos primeiros anos de Medicina, novas convivências - particularmente femininas - originaram resultados cada vez mais fracos.
Para o Luís aulas, disciplinas, estudar sempre foi uma grande "seca", chegava mesmo a não comprar os livros de algumas disciplinas.
Com frequência substituía as aulas pelo bilhar, passeio, Biblioteca Municipal no Jardim de S. Lazaro e também pelas livrarias.
As irmãs eram também diferentes uma da outra. A mais nova identificava-se com o irmão mais velho, a mais velha era mais próxima do irmão mais novo, embora distante dos seus excessos.
Certa manhã, o médico acordou mais cedo que o habitual, ainda de noite. Teve um grande sobressalto e não resistiu a acordar a mulher para lhe dar conta do mesmo:
-Aconteceu coisa grave ao Zito.
A mulher retorquiu:
- Ó homem, dorme, andas tão preocupado com eles e nem descansas...
Mas ele insistiu:
- Tive um pressentimento... O Zito está mal. Temos que telefonar.
O telefonema confirmou que o Zito estava realmente bastante mal.
Tudo começou com uma grande constipação, muita tosse, temperatura muito alta, acabando por jorrar sangue ao tossir.
Havia tuberculizado anos antes, tratava-se de uma recaída.
 Muito descanso, bem medicado, recuperou.
Um conjunto de bons amigos visitavam-no diariamente e mais que uma vez por dia. Todos o ajudaram imenso das mais diversas formas.
Um lera-lhe O Tempo e o Vento, de Eurico Veríssimo, centenas de páginas. Era um criativo, destacou-se como empresário de sucesso.
Outro declamava-lhe poesia, destacou-se como ator e encenador largamente premiado. Foi um dos fundadores da Companhia de Teatro Seiva Trupe, Juntamente com dois amigos do mundo artístico.
Outro, trabalhava e estudava, era de todos o mais organizado e atilado, constituiu uma Sociedade de Revisores Oficiais de Contas.
Outro, embora proibido pela mãe por natural receio de contágio - a tuberculose é altamente contagiosa - mesmo assim, ali estava também todos os dias, sempre com uma boa disposição contagiante.
Muitos outros, colegas e amigos, por ali passaram aliviando o seu sofrimento.
O pai foi nessa manhã para o Porto e nesse mesmo dia internou-o no Sanatório Rodrigues Semide.
O contributo do Sr. Fleming com a descoberta da penicilina e de todos aqueles que em condições adversas se entregaram à investigação de outros produtos, foram decisivos para vencer uma doença, até então, mortal.
A mesma que vitimou os pais da mãe do Luís, deixando-a órfã aos 3 anos.
Apesar de ser mais complicado desta vez, o Luís melhorou bastante.
Chegada a primavera foi para aldeia onde tinha boa alimentação e bons ares.
Só precisava descansar. Com a ajuda da medicação, teria tudo para recuperar.
Naquela terra nada acontecia e sossego não era com ele. Ouvia rádio, lia e passeava a cavalo, por vezes de forma desabrida, numa belíssima égua.
Sem se saber porquê a tosse regressou subitamente, acompanhada das hemoptises.
Teve de vir um especialista do Caramulo, numa noite de tempestade, por estradas intransitáveis, para o submeter a um pneumotórax (consiste em insuflar ar entre a pleura e o pulmão, comprimindo assim este órgão).
O objetivo de tal compressão é fechar o vaso doente e assim suster o derrame de sangue.
O médico, com uma estranha boa disposição, atendendo ás circunstâncias, não deixou de avisar que aquele tratamento era muito arriscado. Aconselhou o seu internamento no sanatório, mal recuperasse forças para a viagem.
Entretanto, perguntou por presunto, champanhe, pão e queijo…. Comeu, bebeu e convidou o seu doente a fazer o mesmo. Nada lhe faria melhor que um bom presunto e uma boa “pinga”, dizia.
No dia seguinte as hemoptises regressaram com mais violência. O médico foi de novo chamado e não havendo outra forma de estancar o sangue, jorrava sempre que tossia, antes de repetir o tratamento da véspera, único possível, avisou o colega que o mesmo tanto podia ajudar, como matar o rapaz. Era urgente leva-lo para o Sanatório, o que teve lugar no dia seguinte.
Seguiram de táxi para a Estação do Tua e de comboio para S. Bento - embora não fosse permitido viajar de comboio naquelas condições - para dar de novo entrada no Sanatório Rodrigues Semide.
Não havia medicamentos que atenuassem a tosse nem hemostáticos que contivessem um fio de sangue teimava em escorrer pelo canto da boca.
Passou a ser alimentado com soro, frequentes transfusões de sangue e a respirar com ajuda de oxigénio.
Lentamente, foi perdendo a fala, a visão, os movimentos e deixando de se alimentar.
O dedo com que, num alfabeto, indicava aquilo que pretendia acabou por ficar imóvel.
 Lúcido, perdeu toda a ação, sentiu a morte apoderar-se rapidamente de todos os seus órgãos.
Segue:

II

A SENTENÇA DE MORTE